Um ciclista amador se inscreve na primeira granfondo da carreira depois de meses treinando sozinho, animado com a ideia de medir forças contra um pelotão maior do que qualquer grupo de treino que já integrou. Nos primeiros quilômetros, ainda animado com a largada, ele se agarra à roda de um grupo claramente mais rápido, convencido de que conseguirá manter aquele ritmo até o fim.
Rolando Bonaccorsi, entusiasta em ciclismo, retrata que essa cena se repete em praticamente toda granfondo: o erro que decide a prova geralmente acontece nos primeiros dez minutos, muito antes de qualquer subida decisiva ou qualquer ponto de apoio no percurso.
A largada que decide a prova nos primeiros minutos
Uma granfondo não é treino de grupo nem corrida de elite, mas o corpo reage à largada como se fosse disputa real: adrenalina sobe, ritmo cardíaco acompanha a emoção do pelotão, e o ciclista menos experiente confunde essa sensação com capacidade real de sustentar aquele esforço por horas.
No caso hipotético, seguir a roda de um grupo mais forte custa caro aos quarenta quilômetros, dado que as pernas já não respondem, a subida que deveria ser administrável vira sofrimento, e o restante do percurso se transforma numa negociação constante entre continuar e desistir, quando um ritmo mais conservador na largada teria evitado esse colapso.
O ponto de apoio que chega tarde demais
Comer e beber apenas quando a fome ou a sede já incomodam é outro erro recorrente, em razão de que, nesse ponto, o corpo já está em déficit, e qualquer reposição alimentar chega tarde demais para evitar a queda de rendimento que já começou a se instalar, informa Rolando Bonaccorsi.
A prática recomendada por quem organiza esse tipo de prova é comer a cada quarenta ou quarenta e cinco minutos e beber a cada quinze ou vinte, alternando água e isotônico, independentemente de fome ou sede naquele momento específico. No caso do ciclista amador do exemplo, ignorar esse ritmo regular de reposição transformou o primeiro ponto de apoio em socorro emergencial, não em pausa estratégica planejada com antecedência.
Dividir o percurso em blocos, não numa conta só
Olhar para o total de quilômetros restantes, especialmente depois da metade da prova, costuma desanimar mais do que ajudar. A mente calcula o esforço acumulado e o esforço que ainda falta, e essa soma completa raramente motiva quem já sente as pernas pesadas.
Rolando Bonaccorsi destaca que dividir mentalmente o percurso em blocos menores, tratando cada trecho até o próximo ponto de apoio como uma meta independente, costuma sustentar o ânimo de forma muito mais eficaz do que pensar na distância total pela frente. No caso do ciclista do exemplo, essa mudança de foco, adotada tarde demais, ainda ajudou a recuperar parte do ritmo perdido na largada apressada do início da prova.
O que separa terminar de apenas sofrer até o fim?
Completar uma granfondo pela primeira vez raramente depende de ser o ciclista mais forte do pelotão. Depende, com muito mais frequência, de administrar energia, alimentação e expectativa ao longo de horas, em vez de gastar tudo isso de uma vez nos primeiros minutos de empolgação.
Assim sendo, Rolando Bonaccorsi alude que quem chega à linha de chegada de uma primeira granfondo carregando essas lições aprende algo que nenhum plano de treino sozinho ensina: a diferença entre uma prova sofrida do início ao fim e uma prova desafiadora, mas administrada com inteligência, mora quase inteira nas decisões tomadas antes da metade do percurso.

